Quem escondeu os talentos?

Há um apagão de talentos no País.”

 

Li esta afirmação em recente pesquisa e lembrei de ter ouvido esta frase, assim que comecei a trabalhar, nos anos setenta.

 

Descrever cargos foi uma das primeiras atividades que aprendi e entrevistar os profissionais que ocupavam os tais cargos, o processo utilizado. Em poucos meses, conversei com centenas de pessoas e fiquei impressionado com a complexidade peculiar existente em cada posto de trabalho e, também, com a competência e o orgulho dos funcionários pelo seu trabalho.

 

Por esta razão, estranhei quando ouvi do diretor de RH, meu chefe, comentário sobre sua preocupação com a falta de talentos que avaliava existir para sustentar o crescimento da empresa.

 

Pensei: “Como assim”? Eu acabara de conhecer, não uma, mas muitas pessoas realizando o seu trabalho com esmero e domínio, a maioria tendo consciência de suas responsabilidades e comprometidas com os resultados. Perguntei o porquê do que percebi nas entrevistas não ser reconhecido como talento e recebi como resposta: “Você é muito jovem, por isso, ainda acredita em tudo o que as pessoas falam de si.”

 

Mesmo relutante, por um tempo creditei minha visão à pouca experiência que trazia.

 

Anos se passaram, mudei de emprego algumas vezes, mas sempre me deparando com opiniões ou lendo artigos e pesquisas sobre a tal “escassez de talentos”.

 

Nos anos 1980 tive a felicidade de trabalhar em uma grande empresa, onde convivi com o “estado da arte” na gestão de RH. A contínua preocupação em aperfeiçoar competências dos líderes como desenvolvedores de pessoas, fazia com que o nível dos profissionais que lá trabalhavam fosse altíssimo, também porque este modelo ampliava a capacidade de atrair e manter pessoas competentes, motivadas e orgulhosas de fazerem parte dela, à época e por muito tempo, um ícone no mercado. Diante de tudo isso, avaliei: “Aqui se descobre, se desenvolve e se valoriza o talento humano!”

 

Mesmo assim, também lá ouvi o “mantra” da falta de talentos, embora, de forma menos generalizada. “Como faltam talentos nos níveis operacionais de nossas fábricas” era fala recorrente nos salões da matriz.

 

Quando, porém, comecei a ter contato com os operadores que, aos poucos, foram sendo envolvidos no movimento da Qualidade Total – processo no qual a empresa foi uma das precursoras no País -, reconheci rápido quanta competência e comprometimento também existia no espaço conhecido como “chão de fábrica”. E, assim, a afirmação da escassez de talentos continuava a não fazer sentido para mim.

 

Hoje penso que, talvez, o que acontecia por lá, na realidade, era uma errônea classificação como falta de talento do que seria melhor denominado como falta de preparação formal reconhecida (por escassez de oportunidades e de recursos), em função das diferenças absurdas de acesso ao estudo, saúde e alimentação física e cultural presentes na sociedade, marcantemente no Brasil.

 

Mas, o auge do meu incômodo com o tal “apagão de talentos” veio para valer a partir dos anos 2000, quando passei a me dedicar, como consultor, ao apoio a pessoas em crise de carreira, em especial aquelas que perdem seus empregos.

 

Já passou da casa do milhar o número de profissionais que atendi nesta situação.

 

O método que aprendi a usar neste trabalho envolve conhecer a trajetória de vida e carreira da pessoa, o levantamento de suas realizações e feitos proeminentes e o reconhecimento das competências desenvolvidas e aplicadas por ela nas organizações onde trabalhou.

 

Encontrei muitos que se espantavam, nesta fase do processo, ao constatarem o tamanho e a relevância do próprio talento espelhados no seu novo currículo.

 

Muitas vezes nós mesmos deixamos de reconhecer e aproveitar o nosso talento, simplesmente porque investimos pouco em autoconhecimento ou por não refletir sobre cada experiência, vivendo, como se diz, “no piloto automático”.

 

Mergulhados na correria do dia a dia, pouco nos lembramos do que fizemos e não nos perguntamos: o que produzi de útil e importante? O que aprendi? O que comi? Como estou me sentindo? Anestesia pura.

 

O efeito danoso é não reconhecer o valor do trabalho, esforço e resultado gerado. Esquecer ou nem se dar conta do próprio talento nos faz deixar de aproveitá-lo, ao passo que, ganhar consciência sobre o que construímos e do nosso potencial de contribuição, nos faz mais responsáveis pelo valor único que possui a nossa vida.

 

Hoje mesmo ouvi a seguinte história.

 

Uma idosa senhora, contava aos jovens netos o quanto sua vida, prestes a se acabar, havia sido (e continuava sendo) feliz. Inevitavelmente lhe perguntaram a que ela relacionava esta benção. A resposta foi: “Minha mãe sempre me alertava, toda vez que eu saia de casa sozinha, para não falar com estranhos. Acho que fui muito feliz porque jamais encontrei estranhos em minha vida.”

 

Quando lembro de todos os clientes, parceiros, amigos com quem cruzei nesta vida, ouso me colocar no lugar desta senhora e afirmar: jamais vi uma única pessoa sem talento.

 

A explicação desta “sorte” para mim está relacionada ao que aprendi com um querido amigo, estudioso e incessante pensador do tema potencial humano, que repete, sabiamente a seguinte afirmação: “A pergunta correta é: Talento pra quê e pra quando?”

 

Agrego a esta, outra preciosidade, também vinda de uma amiga, que certo dia me presenteou com a seguinte pérola: “Quer saber qual o talento de alguém? Dê espaço e tempo e, claro, olhe com atenção e interesse genuínos.”

 

Você headhunter, empresário ou executivo, não consegue encontrar gente de talento para te ajudar?

 

Me procure, pois terei o maior prazer de lhe apresentar quantas pessoas quiser.

Profile picture for user Zé Renato Siqueira Jr.
Zé Renato Siqueira Jr.
Sou consultor de carreiras, estratégias e desenvolvimento. Trabalho desde 1988 com orientação profissional, ajudando pessoas a descobrirem e assumirem seu potencial e papel no mundo do trabalho. Atuei em várias empresas, com especial destaque para a Rhodia e DBM do Brasil (hoje LHH).