SEI QUASE NADA SOBRE UBUNTU

Entrei em contato com a palavra Ubuntu em 2006. Assistia ao filme “Em Minha Terra” (In My Country), indicado por minha terapeuta à época, Luiza Lage, pela abordagem de questões na África do Sul, após o fim do regime de segregação racial. Ao ouvi-la pela primeira vez, foi como se sentisse um chamado. “É isso, Ubuntu! É isso que o mundo está precisando!”. Anotei em um caderno, comentei no dia seguinte para colegas de trabalho e segui minha jornada. 

Dois anos depois, após deixar o cargo de Diretor de Marketing da América Latina da J&J, o contador me perguntou o nome da empresa que estava prestes a abrir. E logo respondi: “Ubuntu”! E assim, há 10 anos, iniciei um movimento chamado Rede Ubuntu

Mais do que uma palavra, um conceito, uma filosofia, Ubuntu é um jeito de viver. A jornada de construir a sua individualidade dentro de uma comunidade. No meu observador, uma linda dança entre o Eu e o Nós. Ubuntu, como aprendi na 1ª Conferência Mundial Ubuntu, em 2014, em Lisboa, não se trata do coletivo pelo coletivo nem apenas de você. Em seis letras, resume bem um lindo caminho de integração entre o individual e o coletivo. Algo que, acredito, a nossa humanidade ainda precisa muito desenvolver. 

Dez anos depois de trabalhar, viver, amar, cuidar, discutir e lutar (muito) por espalhar Ubuntu pelo mundo, descobri que, no fundo, ainda sei bem pouco deste modelo de vida que tanto me inspira e encanta. 

Claro que, cognitivamente, entendo os conceitos descritos acima. Porém, me refiro a uma compreensão mais profunda, mais integral, nas diferentes linhas de desenvolvimento: mental, emocional, físico e espiritual. 

Deixa eu te dar um exemplo de como este jeito de viver ainda não flui naturalmente em mim... 

Em 2009, quando fundei a Rede Ubuntu de EUpreendedorismo, após 14 anos no mundo corporativo, meu sonho era construir uma organização verdadeiramente colaborativa, interdependente, orgânica. E lá fui eu!

Após inúmeras experiências, alegrias e tristezas, amores e dores, estou começando tudo de novo, 10 anos depois (para saber mais sobre esse processo, acesse https://www.eduseidenthal.com/blog/2018/5/18/de-novo). Com o mesmo sonho de um mundo mais colaborativo e interdependente, somado a esse período de aprendizados profundos, chego mais uma vez a uma constatação cruel: é impressionante como temos padrões enraizados em nós mesmos. 

Nesses anos, apesar de mentalmente não querer (de jeito nenhum) criar uma organização baseada em dependência, poder, comando e controle, acabei caindo nesse mesmo lugar. Sim, usei palavras bonitas, estética linda, metáforas inspiradoras, mas acabei repetindo o mesmo padrão. Uma organização ainda baseada na dependência ou independência... Ou, pior, na tentativa de ir para a interdependência, a falta de clareza sobre para onde íamos gerou uma confusão gigante em todos nós, membros da Rede. E acabamos não virando nem uma coisa nem outra. 

Um claro sintoma desse processo foi que investi (e não fui só eu!) uma energia enorme na construção do coletivo e, quando me dei conta, havia esquecido de mim... Nos últimos três anos, meu faturamento, por exemplo, caiu na casa de 20 a 30% ao ano, enquanto eu lutava para que a Rede Ubuntu fosse uma organização inovadora, funcionando em um modelo novo organizacional, sem correr o risco de morrer. Até porque uma voz dentro de mim dizia que, se ela morresse, eu também estaria acabado! 

Repare bem em algumas das palavras que usei para descrever minhas atitudes nos últimos tempos: luta, garantia que não morresse... E preste atenção como estas palavras não ornam com o mundo orgânico, fluído, inovador e interdependente. 

É impressionante como todas as referências nas quais eu fui educado estão relacionadas aos modelos de dependência e independência. E, mais impressionante, como a minha natureza (ou o meu próprio corpo) está baseada numa dança linda e integrada de interdependência. É quase como se o hardware (meu corpo) estivesse preparado para um sistema operacional muito mais avançado do que o download feito nas primeiras décadas da minha vida. 

Estou precisando desapegar de tantos conceitos, desaprender tantas teorias e “verdades”, para poder, no mínimo, caminhar e experimentar um novo jeito de viver... Um novo jeito de me relacionar. Quem sabe, um jeito Ubuntu de viver! 

Essa reflexão é tão profunda, para mim, que não tenho a menor dúvida de que tudo isso é uma jornada espiritual, pois, afinal de contas, algo que queremos tanto para o mundo é, no fundo, algo que queremos fazer para nós mesmos, não é? Olha o individual e o coletivo novamente!!! 

E, assim, estou aqui, começando de novo, lançando o meu novo site (www.eduseidenthal.com), construindo a individualidade Edu Seidenthal, e também nutrindo o ecossistema Rede Ubuntu, uma linda inspiração, um caminho para criar conexões e seguir vivendo em rede. 

Ainda estou desapegando das amarras, dos medos, das “verdades”, para autenticamente experienciar a jornada. 

E lá vamos nós de novo!

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Eduardo Seidenthal
Sou pai da Vivi e do Gabi, e marido da Jojo. Tenho me dedicado a inspirar pessoas na expressão da humanidade de cada um... Sou facilitador, empreendedor, educador, coach, marketeiro, escritor, palestrante, e palhaço.