Vídeos para mudar o mundo

Sudão do Sul, Afeganistão, Malauí, Brasil. Nos últimos dez anos, a gaúcha Fernanda Baumhardt-Grojean esteve em 22 países em missões de ação humanitária ou em projetos de preparação para desastres. Como consultora independente, colaborou com diversas agências da ONU, a Cruz Vermelha Internacional e, mais recentemente, como especialista de Comunicação Comunitária da NORCAP, braço de consultores técnicos da Conselho de Refugiados da Noruega (NRC).

 

Em cada um desses lugares, utilizando sua experiência em Jornalismo, ajudou comunidades vulneráveis ou afetadas por conflitos e desastres naturais a se comunicar com os decisores de programas humanitários, apresentando suas necessidades mais urgentes. Também capacitou grupos para identificar e produzir suas próprias mensagens em vídeo, ampliando, assim, a voz e a dignidade de centenas de pessoas.

 

Nesse trabalho, difícil muitas vezes, especialmente pela sensação de impotência diante de tanto sofrimento, pobreza extrema, falta de condições mínimas para se viver, Fernanda encontrou o caminho para expressar o seu propósito de vida e, como ela mesma diz, se tornou “uma nômade cidadã do planeta”. Cada experiência tem lapidado ainda mais a sua sensibilidade e o desejo de transformar o sofrimento de milhares de pessoas.

 

Esta é a sua jornada de EUpreendedorismo.

 

De Porto Alegre para o mundo – Pouco tempo depois de terminar a faculdade, em 1995, Fernanda se mudou de Porto Alegre para São Paulo, para estagiar em uma produtora de vídeo. Foi passo a passo avançando na sua estrada. Em 1998, entrou na TV Bloomberg e, em 2000, foi para a Turner International, trabalhando no lançamento do site da CNN Brasil. Em 2005, passou uma temporada na sede de Londres e, em 2006, deixou o Brasil para trabalhar na nova divisão CNN Digital, em Los Angeles. Gostava muito do que fazia e da vida que levava, mas sentia um vazio por não estar fazendo algo pela humanidade, pelo planeta.

 

Sentiu o primeiro “chamado interno” em outubro de 2006, durante um retiro em Sedona (Arizona), para celebrar o aniversário de 36 anos. Naquela época, estava muito triste pelo fim de um grande amor. O processo de separação reforçou o desejo de dedicar a sua vida a causas maiores, mais importantes. “Ao mesmo tempo que buscava um reencontro comigo mesma, tinha uma necessidade de ajudar o mundo”, lembra.

 

Das reflexões a ação – Pouco tempo depois, em fevereiro de 2007, deixou a CNN, ainda sem saber o que iria fazer. Só tinha uma certeza: queria ajudar o planeta. “Foi um período de muita angústia. Hoje, entendo que a busca pelo propósito tem esta fase. Fui me reconectando com minha essência, tentando achar um caminho que unia minha experiência em comunicação com alguma necessidade do planeta.”

 

Em busca de novos caminhos, Fernanda decidiu cursar Mestrado em Gestão Ambiental, na Universidade Livre de Amsterdã, e recebeu uma bolsa de estudos. Durante o programa, conheceu Pablo Suarez, pesquisador da Cruz Vermelha. Por meio dele, ouviu pela primeira vez sobre a metodologia de vídeo participativo. Na hora sentiu algo muito forte, mais do que um insight, uma certeza: “É isso!” Trocou ideias com Suarez, que acabou lhe oferecendo uma oportunidade de fazer a pesquisa de campo de sua tese de mestrado no Malauí, na África, abordando o impacto dessa ferramenta de comunicação comunitária para a troca de experiências de adaptação às mudanças climáticas.

 

Passou dois meses lá, refletindo muito sobre a pobreza e a situação de vulnerabilidade que encontrou e fazendo o contraponto com a vida nas grandes cidades, para ela, espécie de “bolhas” alheias a estas tristes realidades. “Em Genebra, São Paulo, Nova York, Londres, os moradores reclamam de tudo, são muito egoístas. Não tem ideia, muitas vezes, como as pessoas realmente sofrem na maior parte do planeta.”

 

Foi nessa viagem, também, que teve a certeza do que buscava para a sua vida e passou a repetir para si mesma: “Fernanda, bem-vinda ao mundo que você quer ajudar a mudar”. Nas horas vagas da pesquisa, criou o primeiro site da organização que decidira fundar, a PROPLANETA, cuja missão é empoderar grupos e comunidades em comunicação participativa e comunitária, para ampliar vozes, necessidades, soluções e catalisar mudança.

 

De volta para a Holanda, terminou o Mestrado. Depois, veio de férias para São Paulo, buscando estruturar os projetos da PROPLANETA. Aproveitou o retorno ao país para fazer exames de rotina e foi diagnosticada com câncer de mama. Recebeu a notícia como um xeque-mate ao seu ideal de vida. Passou por uma cirurgia e fez radioterapia. “Eu me dediquei à minha cura e ao tratamento, mas me neguei a viver em volta da doença”.

 

Confiança em si mesma – Seu primeiro contato com o EUpreendedorismo foi durante o tratamento no Hospital de Câncer em São Paulo, em abril de 2009, período durante o qual resolveu se dedicar, como voluntária, à Carta da Terra, para justamente ir além da doença. Foi quando conheceu Edu Seidenthal, fundador e membro da Rede Ubuntu.

 

Foi um encontro de ideias e visão de mundo”, comenta. Decidiu mergulhar num processo de coaching com ele, para reafirmar o seu propósito e vencer seus medos. Mesmo sendo muito determinada, dúvidas e inseguranças ainda atrapalhavam seus planos.

 

O coaching reafirmou a essência e o propósito de Fernanda: definitivamente, seu papel no mundo era trabalhar fortalecendo a comunicação de grupos e comunidades sem voz. “Esta é a minha missão de vida. Assumi minha decisão como se tivesse nascido para isso. Foi uma escolha muito intensa, a qual poucos amigos e família realmente compreenderam. Fui muito julgada e mal interpretada por gente próxima que, de uma certa maneira, se sentiu incomodada com o meu novo caminho. Como se, indiretamente, questionassem suas escolhas de lugar acomodado e vida vazia.”

 

Segundo Fernanda, o coaching a ajudou e se reconectar consigo mesma, a ganhar confiança e a fortalecer a sua trajetória e o próprio projeto, que passou a se chamar PROPLANETA Brasil e Internacional. “Em 2012 apoiamos uma grande iniciativa no Rio de Janeiro e, por quase cinco anos, capacitamos mais de 300 jovens em Jornalismo Cidadão em prol da mobilidade urbana. Eles produziam a programa Diálogo Jovem veiculado pelas TVs Ônibus, no Rio de Janeiro, com conteúdo totalmente voltado para criação de valor, cidadania, sustentabilidade e mobilidade inteligente. Ajudamos a criar muitos agentes de mudança, por meio da comunicação participativa. Foi incrível.”

 

Enquanto o programa avançava no Brasil, Fernanda foi buscar o grande sonho de chegar às comunidades mais vulneráveis do planeta e dar voz àqueles que mais precisam de ajuda. Criou a sua base internacional em Genebra e alçou voo pelo mundo.

 

Em cada projeto de vídeo participativo, viaja sozinha, contando com o apoio de equipes locais, para capacitar grupos de jovens a entender a própria situação e contar essa história, utilizando equipamentos e técnicas de produção de vídeo participativo. Assim, em cada comunidade, ela tem a chance de mostrar ao mundo como vive essa população ou as situações de conflito presentes, criando documentários sobre a vida de milhares de pessoas pouco observadas pelos governos e sociedade.

 

De todos os lugares que Fernanda esteve trabalhando, três foram muito marcantes: Jordânia, em contato com o drama de refugiados sírios; Sudão do Sul, onde trabalhou em um campo de proteção de deslocados internos de uma etnia perseguida; e Afeganistão onde esteve recentemente trabalhando com comunidades que fugiam do Talibã, em regiões de extrema seca. A foto (Amanda Nero/IOM) que ilustra este texto é do Afeganistão, com Fernanda facilitando uma edição participativa, em Herat, em agosto deste ano.

 

Como falar de empoderamento para pessoas em situações como essas?”, pergunta Fernanda, lembrando que passou algumas noites chorando muito, no container onde dormia no Sudão do Sul, tentando transformar aspectos tão negativos em positivos. Aos poucos, percebeu que a própria comunidade havia encontrado um caminho: o da solidariedade e ajuda mútua. No campo, havia uma rádio local, utilizada como meio de resistência para o grupo se manter unido. Todos ajudando uns aos outros a sobreviver.

 

Mudanças sistêmicas – Para Fernanda, todas as escolhas e decisões que fez, desde 2006, foram como “chamados internos”, desejos profundos que a vida lhe ofereceu. Hoje, aos 48 anos, novos questionamentos emergem. Sente a necessidade de ampliar o impacto do seu trabalho provocando mudanças mais sistêmicas de longo prazo e não ações pontuais “para tentar apagar um incêndio que nunca termina”.

 

Enquanto busca a resposta para, talvez, a maior de suas perguntas até então, Fernanda voltou a conversar com o Edu para tentar, em conjunto, encontrar os próximos passos dessa longa caminhada. Enquanto se questiona e se revira por dentro, está determinada a aproveitar esse mergulho para escrever o seu primeiro livro.

 

O objetivo é relatar sua jornada de propósito, seus medos e desafios durante as missões humanitárias, seus encontros e desencontros na vida amorosa e sua luta para vencer os desafios de saúde, para poder seguir adiante. “Humildemente, sei que estou cumprindo a minha missão de vida. Não posso desistir. Se fizer isso, morro!”

 

 

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Silvia Maiolino
Acredito no poder transformador e de conexão da Comunicação. Jornalista, com mais de 25 anos de experiência em Comunicação Corporativa, dirijo a Quasar Comunicações. Busco oferecer soluções digitais, impressas e de relacionamento, atendendo às demandas dos clientes de forma customizada, Serviços: Mídias Digitais, sites, publicações impressas, Relações com a Imprensa, eventos e treinamento.